19 de Novembro de 2008

O círculo do amor

Certa manhã, um camponês bateu com força na porta de um convento. Quando o irmão porteiro abriu, ele lhe estendeu um magnífico cacho de uvas.

“− Caro irmão porteiro, estas são as mais belas produzidas pelo meu vinhedo. E venho aqui para dá-las de presente.

− Obrigado! Vou levá-las imediatamente ao abade, que ficará alegre com esta oferta.

− Não! Eu as trouxe para você.

− Para mim? Eu não mereço tão belo presente da natureza.

− Sempre que bati na porta, você abriu. Quando precisei de ajuda porque a colheita foi destruída pela seca, você me dava um pedaço de pão e um copo de vinho todos os dias. Eu quero que este cacho de uvas traga-lhe um pouco de amor do sol, da beleza da chuva, e do milagre de Deus.

O irmão porteiro colocou o cacho diante de si, e passou a manhã inteira admirando-o: era realmente lindo. Por causa disso, resolveu entregar o presente ao Abade, que sempre o havia estimulado com palavras de sabedoria.

O Abade ficou muito contente com as uvas, mas lembrou-se que havia no convento um irmão que estava doente, e pensou: ‘vou dar-lhe o cacho. Quem sabe, pode trazer alguma alegria à sua vida’.

Mas as uvas não ficaram muito tempo no quarto do irmão doente, porque este refletiu: ‘o irmão cozinheiro tem cuidado de mim, alimentando-me com o que há de melhor. Tenho certeza que isso lhe trará muita felicidade’. Quando o irmão cozinheiro apareceu na hora do almoço, trazendo sua refeição, ele entregou-lhe as uvas.

− São para você.

Como sempre está em contato com os produtos que a natureza nos oferece, saberá o que fazer com esta obra de Deus.

O irmão cozinheiro ficou deslumbrado com a beleza do cacho, e fez com que o seu ajudante reparasse a perfeição das uvas. Tão perfeitas que ninguém para apreciá-las melhor que o seu irmão sacristão, responsável pela guarda do Santíssimo Sacramento, e que muitos no mosteiro viam como um homem santo.

O irmão sacristão, por sua vez, deu as uvas de presente ao noviço mais jovem, de modo que esse pudesse entender que a obra de Deus está nos menores detalhes da Criação. Quando o noviço o recebeu, o seu coração encheu-se da Glória do Senhor, porque nunca tinha visto um cacho tão lindo. Na mesma hora lembrou-se da primeira vez que chegara ao mosteiro, e da pessoa que lhe tinha aberto a porta; fora este gesto que lhe permitira estar hoje naquela comunidade de pessoas que sabiam valorizar os milagres.

Assim, pouco antes do cair da noite, ele levou o cacho de uvas para o irmão porteiro.

− Coma e aproveite. Porque você passa a maior parte do tempo aqui sozinho, e estas uvas lhe faro muito bem.

O irmão porteiro entendeu que aquele presente tinha lhe sido realmente destinado, saboreou cada uma das uvas daquele cacho e dormiu feliz”.

Paulo Coelho – O Zarrir

2 comente aqui:

Ana Tapadas disse...

Olá1
Os meus alunos adoram ler Paulo Coelho.
Bela escolha a sua - neste texto.
Beijinho

meus instantes e momentos disse...

belissimo seu blog.
Maurizio